China em Transformação
O Reequilíbrio Estratégico e as Novas Rotas para o Brasil no Cenário Global
A economia chinesa, um pilar inquestionável do crescimento e da dinâmica geopolítica mundial, está navegando por um período de transformações estruturais profundas. Para qualquer analista econômico ou empresário atento, entender esse movimento é crucial para decifrar as tendências futuras do comércio e dos investimentos globais. A busca por um reequilíbrio econômico interno na China não é apenas uma diretriz política, mas um complexo rearranjo que ressoa em todos os continentes, especialmente no Brasil.
O Reequilíbrio Interno da Economia Chinesa: Desafios e Paradigmas
Historicamente, o modelo de crescimento chinês foi impulsionado por exportações e investimentos massivos. No entanto, análises aprofundadas relativas ao ano de 2025 indicam uma notável guinada para o fortalecimento da demanda interna. Apesar de o PIB chinês ter demonstrado resiliência, expandindo 5,3% no primeiro semestre de 2025, impulsionado por estímulos fiscais e um vigoroso setor exportador, a demanda doméstica apresentou um ritmo mais contido, com investimentos em ativos fixos crescendo 1,6% e as vendas no varejo, 4,8%. Essa moderação reflete os desafios inerentes a essa transição.
Um dos fenômenos econômicos mais persistentes e desafiadores que a China enfrenta é a deflação, a mais longa observada desde os anos 1990. Esse cenário complexo é um sintoma do excesso de capacidade produtiva, da acirrada competição interna entre empresas e de uma demanda doméstica ainda enfraquecida. Para combater essa espiral, Pequim lançou a estratégica campanha “anti-involution”, visando disciplinar a competição desordenada e restabelecer a rentabilidade em setores-chave da economia. As medidas em pauta incluem revisões na lei de preços, proibições de vendas abaixo do custo e cortes de produção em indústrias como a de aço, cimento, baterias e energia solar. Essa é uma mudança de paradigma que prioriza a qualidade e a sustentabilidade em detrimento de uma expansão meramente acelerada, e seus impactos se desenrolarão em prazos mais dilatados, exigindo paciência e adaptabilidade dos mercados globais. Além disso, o setor imobiliário, que já respondeu por cerca de um terço da economia, segue em um ciclo de ajuste desde 2020, introduzindo uma camada adicional de incerteza no panorama doméstico chinês.
Em paralelo, a Nova Lei de Promoção da Economia Privada (LPEP), em vigor desde maio de 2025, sinaliza um esforço institucional para blindar e fortalecer o setor privado chinês. Essa legislação busca consolidar direitos, garantir igualdade de tratamento e fomentar um ambiente de negócios mais transparente e previsível. Com o setor privado representando mais de 96% das entidades de mercado, gerando 80% das vagas de emprego urbano e contribuindo com 60% do PIB, o êxito da LPEP em traduzir essas diretrizes programáticas em transformações concretas no ambiente de negócios é de importância capital. Sua efetividade dependerá, em grande medida, da regulamentação coordenada pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC) e de uma implementação consistente em todos os níveis de governo – fatores que a Centralmaster, por exemplo, acompanha de perto para entender as nuances do impacto no ambiente de negócios global.
O Xadrez Geoeconômico Global e a Ascensão dos Minerais Críticos
A rivalidade geoeconômica entre Estados Unidos e China continua a remodelar a ordem internacional, demandando do Brasil uma postura de cautela diplomática e um esforço contínuo para ampliar sua competitividade e diversificar parcerias. Nesse contexto estratégico, a questão dos minerais críticos, em particular o lítio, emerge como um vetor central das disputas comerciais e das cadeias de valor globais.
Especialistas detalham a crescente presença chinesa na mineração sul-americana, impulsionada pela relevância inconteste desses minerais para o progresso tecnológico e a transição energética global. A China, que já detém o controle de aproximadamente 70% da produção mundial de terras raras, tem direcionado investimentos substanciais para a América do Sul, uma região abundantemente rica em lítio, cobre, níquel-cobalto e grafite. Exemplos claros incluem os expressivos investimentos da Ganfeng Lithium e Zijin Mining Group no “Triângulo do Lítio” (Argentina, Chile e Bolívia), que concentra 55% dos recursos globais conhecidos, e aquisições estratégicas no Peru (cobre) e no Brasil (cobre, estanho, nióbio, níquel e lítio). A compra pela MMG das minas de Barro Alto e Codemin da Anglo American, e os investimentos da BYD na exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, são indicativos dessa estratégia de longo prazo. Essa integração vertical, que conecta a mineração upstream com a montagem downstream (produção de veículos elétricos e baterias), demonstra a visão estratégica das empresas chinesas em fechar cadeias de valor.
Para o Brasil, essa dinâmica representa uma janela de oportunidade ímpar. A demanda chinesa crescente por minerais críticos, aliada à capacidade brasileira de fornecê-los e à expertise em manufatura, pode abrir caminho para uma integração produtiva regional mais robusta. O país tem o potencial de atuar não apenas como um fornecedor de matéria-prima, mas também na fabricação de cátodos, baterias e até mesmo veículos elétricos, agregando valor e tecnologia às cadeias de minerais críticos.
Balança Comercial Brasil-China: Tendências, Oportunidades e a Dinâmica das Commodities
Uma análise detalhada da balança comercial Brasil-China no primeiro semestre de 2025 revela tendências importantes. As exportações brasileiras para a China totalizaram US$ 47,7 bilhões, representando uma retração de 7,5% em relação ao mesmo período de 2024. Essa foi a maior queda desde 2015, impulsionada majoritariamente pela desvalorização dos preços de commodities agrícolas como a soja e o minério de ferro. Apesar dessa queda, a China manteve sua posição como principal parceiro comercial do Brasil, respondendo por 28,8% do total exportado.
Em um movimento inverso e revelador da nova dinâmica econômica, as importações brasileiras com origem na China atingiram um recorde de US$ 35,7 bilhões no primeiro semestre de 2025, um crescimento expressivo de 22%. Esse aumento foi catalisado pelo volume de produtos chineses de maior valor agregado, como carros híbridos, eletroeletrônicos e químicos. Destaques notáveis incluem o crescimento das importações de laminados de aço, com um aumento de 318% no valor, e o vertiginoso disparo nas compras de carros híbridos, que cresceram 52% em volume, impulsionadas por estratégias de antecipação de embarques em função da elevação gradual das tarifas.
Apesar da queda no valor exportado, a participação da indústria de transformação nas exportações brasileiras para a China avançou para 20%. Esse avanço foi impulsionado por produtos como carne bovina e celulose processada, além de manufaturados industriais de maior valor agregado, como torneiras para canalizações e centrifugadores, cujas vendas cresceram exponencialmente. Adicionalmente, as exportações de terras raras para a China triplicaram em relação a 2024, somando US$ 6,7 milhões, um claro indicativo da crescente demanda chinesa por esses metais estratégicos para tecnologias de ponta e para a transição energética.
O Brasil registrou um superávit comercial de US$ 12 bilhões com a China, mas esse saldo representa praticamente a metade do obtido no mesmo período do ano anterior, sendo o menor desde 2019. Esse dado sublinha a necessidade de uma análise contínua e estratégica da pauta de exportação e importação, buscando otimizar o posicionamento brasileiro frente às demandas chinesas e às flutuações inevitáveis das commodities. Geograficamente, estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais se destacam nas exportações, enquanto São Paulo lidera as importações, evidenciando as diferentes frentes da relação comercial.
Navegando o Futuro: Estratégias para o Brasil em um Mundo em Transformação
A complexidade e a centralidade da relação sino-brasileira no atual cenário global são inegáveis. Para o Brasil, o grande desafio reside em otimizar sua inserção competitiva na economia mundial, diversificando parcerias e mitigando vulnerabilidades. A China, com sua busca por um reequilíbrio econômico interno e sua demanda crescente por minerais críticos e tecnologias, apresenta-se como um parceiro fundamental. No entanto, exige do Brasil uma estratégia multifacetada que transcenda a mera exportação de commodities.
É imperativo que o Brasil continue a investir em suas políticas industriais, pesquisa e desenvolvimento (P&D), visando o avanço para atividades de maior valor agregado e intensidade tecnológica. A cooperação em áreas como tecnologias verdes e a exploração inteligente de minerais críticos podem ser catalisadores poderosos para o desenvolvimento sustentável do país. Acompanhar a implementação das reformas econômicas chinesas e as dinâmicas das cadeias de valor globais será crucial para que o Brasil maximize as oportunidades e minimize os riscos nesse cenário de rivalidade e transformação.
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