Desvendando o Sucesso
Como os Correspondentes Bancários Moldaram a Economia do Acesso no Brasil
Como economista, é fascinante observar as transformações que moldam o panorama financeiro de uma nação. Entre as mais notáveis no Brasil, figura a ascensão dos Correspondentes Bancários (CBs). O que começou como uma solução para um problema de acesso, transformou-se em um pilar estratégico que redefiniu a inclusão financeira e a dinâmica competitiva do setor bancário, especialmente nos anos que se seguiram à Resolução 3.110 do Banco Central do Brasil, de julho de 2003.
O Grito Silencioso da População Não Bancarizada
Antes da proliferação dos CBs, uma parcela significativa da população na América Latina, e no Brasil em particular, vivia à margem do sistema bancário formal. Dados da época mostravam que 57% da população brasileira não era bancarizada, percentual similar ao de países como Venezuela (72%), Colômbia (75%), Argentina (70%) e México (73%). Essas pessoas, muitas vezes de baixa renda, recorriam a serviços financeiros informais, como empréstimos com pessoas físicas, troca de cheques e câmbio paralelo. Tais alternativas, apesar de acessíveis, carregavam um custo exorbitante para o usuário, que as aceitava pela simples ausência de opções formais.
Acreditava-se tradicionalmente que o baixo poder aquisitivo desses clientes os tornava inviáveis para os bancos. No entanto, a oportunidade de negócios latente, com alto potencial de rentabilidade, aguardava uma estratégia inovadora.
O Correspondente Bancário: Um Agente de Transformação
Foi nesse contexto que a figura do Correspondente Bancário ganhou destaque. Regulamentado para atuar como agente de prestação de serviços assessórios às atividades bancárias, o CB, apesar de não ter o serviço bancário como sua atividade principal, tornou-se a ponte entre as instituições financeiras e milhões de brasileiros. É crucial entender que a responsabilidade pelos serviços permanece integralmente com o banco, e o correspondente não pode cobrar tarifas diretamente dos clientes.
As atividades autorizadas eram diversas e abrangentes, incluindo:
- Recepção e encaminhamento de propostas de abertura de contas (à vista, a prazo e poupança).
- Recebimentos e pagamentos diversos, incluindo fundos de investimento.
- Execução de ordens de pagamento.
- Recepção e encaminhamento de pedidos de empréstimos e financiamentos.
- Análise de crédito e cadastro.
- Execução de serviços de cobrança.
- Recepção e encaminhamento de propostas de cartões de crédito.
- Outros serviços de controle e processamento de dados.
Impacto Estratégico: A “Guerra de Titãs” e a Nova Fronteira
A implementação dos Correspondentes Bancários desencadeou uma verdadeira “guerra de titãs” na indústria bancária. Do ponto de vista estratégico e competitivo, estabeleceu-se uma nova fronteira, e os CBs rapidamente se consolidaram como um dos principais canais de expansão dos serviços bancários. A mídia da época fervilhava com notícias sobre o “Banco Postal: o Banco chega aonde nenhum outro chegou” e “Lotéricas vão receber contas!”, demonstrando a efervescência e o reconhecimento do modelo.
A Proposta de Valor e Seus Pilares Econômicos
A verdadeira bancarização, como se enfatizava, vai muito além de ter um lugar para pagar contas. Ela significa acesso a crédito, financiamento e outros benefícios. A proposta de valor dos CBs focou em oferecer serviços de muito baixo custo, atendendo às principais preocupações do segmento-alvo e substituindo serviços informais caros.
Contas Simplificadas e Flexibilidade: Com tarifas controladas e horários de atendimento flexíveis, as contas abertas via CBs, como o Banco Popular do Brasil e o Banco Postal, demonstraram um crescimento expressivo. Em 2004, milhões de contas à vista e de poupança foram abertas por meio desses canais.
Microcrédito: Embora o Brasil apresentasse uma baixa penetração de microcrédito em comparação com outros países da América Latina (menos de 3% dos clientes potenciais atendidos), os CBs foram vistos como um caminho para mudar esse cenário, apesar dos desafios de inadimplência e das altas taxas de juros associadas.
Crédito Consignado: Este se tornou um sucesso notável. Para os bancos pequenos e médios, os CBs respondiam por 95% dos empréstimos concedidos a aposentados. Em 2005, o crédito consignado já havia movimentado mais de R$ 7 bilhões em empréstimos para 4 milhões de aposentados e pensionistas, sendo que cerca de 50% deles não estavam integrados a operações bancárias. Seu sucesso residia no baixo risco (desconto em folha), spread adequado e na capacidade de prospectar clientes que não eram correntistas.
Pagamento de Contas: Esta foi, sem dúvida, a atividade mais expressiva. Em 2005, o mercado de Correspondentes Bancários movimentou cerca de R$ 29 bilhões e realizou aproximadamente 1 bilhão de transações de recebimento de contas, com um valor médio de R$ 20,28 por operação. A forte concentração (75%) das atividades dos CBs neste segmento evidencia sua capilaridade e flexibilidade.
Capilaridade e Eficiência de Custos: A Revolução da Rede
Os CBs foram cruciais para a expansão da rede bancária. Em dezembro de 2004, já existiam 38.158 pontos instalados, e o mais impressionante: todos os 5.561 municípios brasileiros passaram a ter, no mínimo, uma agência bancária, PAB ou um Correspondente Bancário. Isso representou um salto gigantesco na bancarização e na redução da distância entre a população e os serviços financeiros, especialmente em regiões antes desprovidas.
A atratividade econômica para os bancos era evidente nos custos. Uma operação em agência tradicional podia variar entre R$ 1,50 e R$ 2,20, enquanto nos Correspondentes Bancários, esse custo caía para cerca de R$ 0,30 a R$ 0,70. Essa redução permitia aos bancos transformar custos fixos em variáveis e reduzir o custo de imobilização. Para o correspondente, significava receita extra, aumento do fluxo de pessoas e aproveitamento de recursos ociosos.
Inovação e Parcerias: O Ecossistema dos CBs
Diversas instituições desempenharam papéis fundamentais na consolidação desse modelo:
- Lemon Bank: Um pioneiro no uso exclusivo de correspondentes, destacou-se pela inovação, eficiência e capilaridade, utilizando tecnologias como GPRS para processar milhões de transações mensais e levar serviços bancários a mais de 1.000 municípios.
- ABN AMRO Real: Com sua rede “Pague Aqui”, demonstrou como uma parceria estratégica podia escalar rapidamente, com mais de mil lojas em operação e milhões de transações mensais, capturando uma fatia significativa dos recebimentos do banco.
- Serasa: Essencial para a gestão de riscos, a Serasa oferecia soluções de análise de crédito, prevenção a fraudes e decisões de crédito (como o Autorizador de Crédito), que se tornaram vitais para a expansão segura do modelo CB.
- TecBan: Atuando como um integrador e provedor de infraestrutura, a TecBan possibilitou a conectividade e a segurança das transações, com uma vasta rede de estabelecimentos com POS, treinamento e suporte técnico, garantindo a operacionalidade e a confiança do sistema.
- Caixa Econômica Federal: Com um foco social, a CAIXA utilizou os CBs, como as lotéricas, para promover a bancarização da população de baixa renda e expandir sua presença, diminuindo drasticamente a distância média que os cidadãos precisavam percorrer para acessar serviços.
Desafios Remanescentes e o Futuro Incerto (na Perspectiva de 2006)
Apesar do sucesso, os economistas da época já vislumbravam desafios. A expectativa de um incremento contínuo no mercado de CBs (estimado em 20% para 2006) vinha acompanhada da previsão de tarifas cada vez menores e remunerações maiores para os parceiros, o que poderia impactar a rentabilidade dos bancos no longo prazo. Questões como a sustentabilidade da redução de custos, os aspectos trabalhistas e a intensa competição eram pontos de debate.
Ainda se discutia a baixa penetração do microcrédito e os desafios para seu direcionamento eficaz. Também era crucial garantir que as atividades dos correspondentes fossem sempre complementares aos seus negócios principais para evitar riscos de ações judiciais, um ponto sensível para a regulamentação.
A grande questão, que ecoava nas discussões e permanecia sem resposta, era: “Finalmente, os Correspondentes Bancários, no futuro, vão virar banco?” Essa interrogação, lançada em 2006, evidencia a magnitude da transformação em curso e a percepção de que o modelo era, em si, uma força disruptiva com potencial para reconfigurar as fronteiras do setor.
Conclusão: Um Legado de Acesso e Oportunidades
A trajetória dos Correspondentes Bancários no Brasil é um caso de estudo fascinante em economia do acesso e inovação financeira. Eles foram um “tremendo sucesso” em promover a bancarização, reduzir custos, expandir a rede e, fundamentalmente, levar serviços essenciais a milhões de brasileiros. Para o governo, significou inclusão social; para os bancos, capilaridade e redução de despesas; para os correspondentes, novas receitas e maior movimento em seus estabelecimentos; e para os clientes, conveniência e dignidade.
Nesse cenário de evolução e complexidade, a necessidade de plataformas robustas que ofereçam insights e suporte é evidente, e é aqui que soluções como as da Centralmaster se tornam parceiras estratégicas, otimizando a gestão e o crescimento no dinâmico mercado financeiro. A experiência dos CBs mostra que, com visão estratégica e adaptabilidade, o acesso financeiro pode ser democratizado, impulsionando o desenvolvimento econômico e social.
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